Sendo a leitura o meu "passatempo" favorito, fiquei bastante desiludido quando, ao arrumar os livros na casa nova, percebi que ocupam um espaço ridiculamente pequeno na estante da sala. E metade deles são livros que eu não consegui terminar de ler ou não tornaria a ler. Há ainda o caso único de um livro em duplicado. "A Relíquia" de Eça de Queirós, em duas edições diferentes. Uma pertenceu ao meu irmão e vem dos tempos em que era leitura obrigatória na escola. A outra foi-me oferecida pelo meu amigo Nuno num aniversário. Li o livro oferecido e prometi devolver o desviado ao seu dono, assegurando-lhe que é uma grande obra de literatura.
A obra foi considerada herética por questionar a divindade de Cristo e isso não é surpreendente. Surpreendente, para mim, é a simplicidade com que Eça tenta desfazer os equívocos das religiões: «Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro Deus criado pelos homens... Sou anterior aos deuses transitórios: eles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem: e eternamente permaneço em torno deles e superior a eles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpétuo esforço de realizar fora de mim o Deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciência; sou neste instante a tua própria consciência reflectida fora de ti, no ar e na luz, e tomando ante os teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás habituado a compreender-me».
Eça é que é Eça!
15 dezembro, 2007
26 maio, 2006
O Primeiro Homem
«O Primeiro Homem (Notas e planos)» era o título de um pequeno caderno em espiral de papel quadriculado que Albert Camus guardava na sua sacola no momento em que morreu num trágico acidente de automóvel. Crê-se que o autor pretendia fazer uma triologia fortemente autobiográfica que descrevesse a vida de Jacques Cormery, um Argelino que, tal como ele, nascera numa família pobre, de um pai que nunca conhecera e de uma mãe com problemas de expressão, que lhe dedicava um amor silencioso que ele nem sempre soube reconhecer, embora sempre o tivesse procurado. Camus acreditava que os pobres não têm memória porque, numa vida onde as acções e os cenários permanecem sempre os mesmos, todo o tempo se pode resumir a um instante e desse instante fica apenas a luta pela sobrevivência. E, se têm memórias, não têm palavra. Em plena juventude, Cormery vê, assustado, alguém que o levanta pelo colarinho e o transporta para fora desse mundo. É o Professor da escola primária Monsieur Bernard, «cujas sessões eram constantemente interessantes pela simples razão de que ele amava apaixonadamente a sua profissão». Naquele mundo, todos como Cormery são o primeiro homem e «têm de aprender sós, crescer sós, em força, em potência, encontrar sós a sua moral e a sua verdade». E, à medida que Cormery avança, ganha memória (de coisas que são mais do que aquilo que simplesmente tem que ser), ao mesmo tempo que perde capacidade de escutar e falar com a sua família.
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