15 dezembro, 2007

Eça é que é Eça!

Sendo a leitura o meu "passatempo" favorito, fiquei bastante desiludido quando, ao arrumar os livros na casa nova, percebi que ocupam um espaço ridiculamente pequeno na estante da sala. E metade deles são livros que eu não consegui terminar de ler ou não tornaria a ler. Há ainda o caso único de um livro em duplicado. "A Relíquia" de Eça de Queirós, em duas edições diferentes. Uma pertenceu ao meu irmão e vem dos tempos em que era leitura obrigatória na escola. A outra foi-me oferecida pelo meu amigo Nuno num aniversário. Li o livro oferecido e prometi devolver o desviado ao seu dono, assegurando-lhe que é uma grande obra de literatura.
A obra foi considerada herética por questionar a divindade de Cristo e isso não é surpreendente. Surpreendente, para mim, é a simplicidade com que Eça tenta desfazer os equívocos das religiões: «Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro Deus criado pelos homens... Sou anterior aos deuses transitórios: eles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem: e eternamente permaneço em torno deles e superior a eles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpétuo esforço de realizar fora de mim o Deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciência; sou neste instante a tua própria consciência reflectida fora de ti, no ar e na luz, e tomando ante os teus olhos a forma familiar, sob a qual, tu, mal-educado e pouco filosófico, estás habituado a compreender-me».

Eça é que é Eça!