26 maio, 2006

O Primeiro Homem

«O Primeiro Homem (Notas e planos)» era o título de um pequeno caderno em espiral de papel quadriculado que Albert Camus guardava na sua sacola no momento em que morreu num trágico acidente de automóvel. Crê-se que o autor pretendia fazer uma triologia fortemente autobiográfica que descrevesse a vida de Jacques Cormery, um Argelino que, tal como ele, nascera numa família pobre, de um pai que nunca conhecera e de uma mãe com problemas de expressão, que lhe dedicava um amor silencioso que ele nem sempre soube reconhecer, embora sempre o tivesse procurado. Camus acreditava que os pobres não têm memória porque, numa vida onde as acções e os cenários permanecem sempre os mesmos, todo o tempo se pode resumir a um instante e desse instante fica apenas a luta pela sobrevivência. E, se têm memórias, não têm palavra. Em plena juventude, Cormery vê, assustado, alguém que o levanta pelo colarinho e o transporta para fora desse mundo. É o Professor da escola primária Monsieur Bernard, «cujas sessões eram constantemente interessantes pela simples razão de que ele amava apaixonadamente a sua profissão». Naquele mundo, todos como Cormery são o primeiro homem e «têm de aprender sós, crescer sós, em força, em potência, encontrar sós a sua moral e a sua verdade». E, à medida que Cormery avança, ganha memória (de coisas que são mais do que aquilo que simplesmente tem que ser), ao mesmo tempo que perde capacidade de escutar e falar com a sua família.